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Um
intelectual e dois artistas
Roma, 1935. Na vasta sala do velho
casarão, o som de um piano transmite ao ambiente os acordes de um noturno de Chopin.
Sentado à mesa, um
adolescente, nos seus 17 anos, mantém espalhados lápis coloridos, tintas e folhas com
esboços de desenhos. Algumas pinturas vão tomando forma sobre alguns deles, inacabadas
ainda, mas encaminhadas para a resolução, com a segurança de quem sabe o que está
fazendo.
Ao lado, um senhor de meia idade confere os
rascunhos de um texto que terminara há pouco e que espera colocar no correio antes do fim
do dia. |
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O homem é Francesco Bianco, escritor e
correspondente internacional do «Jornal do Brasil», do Rio de Janeiro. A pianista, sua
mulher, é Maria Bianco-Lanzi que, além da virtuosidade e familiaridade com o teclado, é
dotada de uma cultura invulgar.
O moço envolvido com as tintas é o filho
dos dois, Enrico Bianco que, desde os seis anos de idade, incentivado pelos pais, vinha
estudando desenho e pintura, tendo arrolados entre seus mestres alguns nomes conhecidos da
arte italiana, como Deoclécio Redig de Campos, que chegou a diretor do Museu do Vaticano.
Agora, recebia aulas de Dante Ricci,
outrora professor da família real, não tão famoso, mas igualmente capaz e severo,
passando ao aluno não só as técnicas mas sobretudo um conceito de rígida disciplina,
necessária para quem deseje levar avante qualquer trabalho artístico.
O pai levanta-se e vai ao correio levar seu trabalho. O moço, que treinava pelo menos
seis horas ao dia, fica imerso em seus afazeres. E o som do piano prossegue, iluminando o
ambiente e inspirando o artista.
Adio, Italia mia
Então, certa vez, o piano se calou. Silenciou para sempre. A família Bianco vivia
naquele momento seus piores dias. Além da tragédia que se abateu sobre eles, com a
dolorosa perda da esposa e mãe, os problemas se acumulavam, sem perspectiva de solução.
Francesco Bianco fora outrora um deputado pela democracia cristã e, com a ascensão do
fascismo na Itália, caiu em desgraça. O «Jornal do Brasil», vivendo a crise dos anos
30 e sentindo os efeitos do fechamento do regime também no Brasil, após a posse de
Getúlio Vargas, demitiu-o da posição de seu correspondente na Itália.
Com toda sua erudição e bom relacionamento na Itália, Francesco bem que poderia arrumar
novo emprego mas, para trabalhar na imprensa ou em qualquer órgão de comunicação,
precisaria ter a carteira de fascista, que nem ele queria tirar, nem lhe seria dada, por
seus antecedentes políticos.
Havia outra saída possível, que era viajar para o Brasil, onde já estivera em 1920.
Ali, tinha até uma promessa de emprego na Italcable, um serviço telegráfico por cabos
submarinos que concorria com a Western americana. Mas para isso eram necessários os
passaportes e estes lhe foram negados, por ser considerado um inimigo do governo,
indesejável quando perto e incontrolável quando longe.
Avanti tutti
Sentindo as dificuldades emergentes, o médico da família, que era também cardiologista
de Mussolini, propôs-se a buscar uma solução e, durante uma consulta de rotina ao
ditador, arriscou uma frase: «A mulher de Bianco morreu».
«Eu sei», respondeu o Duce. A resposta era fria, mas não inamistosa ou ostensiva. O
médico arriscou outra investida: «Ele quer três passaportes, para ele e as duas
crianças.»
Um novo e prolongado silêncio e, então, Mussolini responde, firmemente: «Pois que
preencha os papéis, que eu autorizo a emissão.»
E foi assim que, no ano de 1937, conduzido pelas forças do destino, Enrico Bianco chegou
ao Rio de Janeiro, acompanhado do pai e da irmã, estabelecendo-se para sempre no Brasil.
Meses após a chegada, teve um encontro que marcou-o pelo resto da vida.

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